"He that increaseth knowledge
increaseth sorrow."
-- Eclesiastes 1:18
(Frase de abertura do filme "Liberal Arts", 2012)
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Terapia, cura e felicidade - Uma falácia
Hoje minha terapeuta e eu debatemos novamente a validade do processo terapêutico. Ela disse que já teria revisto seus conceitos se houvesse algum fundamento em minha argumentação e que esse não era o caso. Para ela, estou simplesmente em estado defensivo.
Porém, o que me parece mais interessante é o fato de a mestra e doutora, com décadas de experiência clínica, empenhar-se tão colericamente em nossos debates. Fossem meus argumentos ridículos, ela simplesmente os trataria como tal...
Quando você se submete a uma terapia, cria a expectativa de que as questões que o fazem sofrer serão um dia solucionadas e que você finalmente poderá viver uma vida feliz e sem grandes angústias.
O que ninguém lhe conta é que a terapia poderá durar tanto tempo quanto lhe reste de vida. É um investimento sem prazo definido -- apesar de "poucos meses" ser sempre o horizonte apresentado -- e sem nenhuma garantia de retorno. Afinal, quando alguém pode ser considerado completamente curado?
A ideia de que você será pleno e feliz quando (e se) concluir o tratamento é tola. Não há no mundo terapia capaz de resolver as angústias existenciais às quais todos estamos condenados.
Porém, o que me parece mais interessante é o fato de a mestra e doutora, com décadas de experiência clínica, empenhar-se tão colericamente em nossos debates. Fossem meus argumentos ridículos, ela simplesmente os trataria como tal...
Quando você se submete a uma terapia, cria a expectativa de que as questões que o fazem sofrer serão um dia solucionadas e que você finalmente poderá viver uma vida feliz e sem grandes angústias.
O que ninguém lhe conta é que a terapia poderá durar tanto tempo quanto lhe reste de vida. É um investimento sem prazo definido -- apesar de "poucos meses" ser sempre o horizonte apresentado -- e sem nenhuma garantia de retorno. Afinal, quando alguém pode ser considerado completamente curado?
A ideia de que você será pleno e feliz quando (e se) concluir o tratamento é tola. Não há no mundo terapia capaz de resolver as angústias existenciais às quais todos estamos condenados.
domingo, 29 de julho de 2012
A vida é um conto
Após 10 longos anos juntos, comuniquei minha terapeuta de minha intenção de encerrar o tratamento. Há cerca de um ano e meio entrei num processo gradativo de descrença que culminou nessa decisão.
Pergunte a qualquer pessoa o que ela deseja na vida e a resposta provavelmente será "ser feliz". Para mim, ser feliz era aprender a amar. E foi um coração partido que me conduziu à terapia.
Uma década depois, a conclusão a que chego, com base em minha própria experiência e no conhecimento de filósofos e sociólogos renomados, é que estive perseguindo uma ilusão.
Zygmunt Bauman afirma em Amor Líquido que "a promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a 'experiência amorosa' à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço".
Em A Arte da Vida, Baumam sugere que façamos uma pausa em nossa busca pela felicidade, que "temos em mente a maior parte do tempo, preenche a maior parte de nossas vidas, [mas] não pode nem vai abrandar a marcha, muito menos parar... pelo menos não por mais que um instante (fugaz, sempre fugaz)".
Enfim, como sintetiza Luiz Felipe Pondé em Contra um Mundo Melhor, citando Macbeth de William Shakespeare: "A vida é um conto narrado por um idiota significando nada".
Pergunte a qualquer pessoa o que ela deseja na vida e a resposta provavelmente será "ser feliz". Para mim, ser feliz era aprender a amar. E foi um coração partido que me conduziu à terapia.
Uma década depois, a conclusão a que chego, com base em minha própria experiência e no conhecimento de filósofos e sociólogos renomados, é que estive perseguindo uma ilusão.
Zygmunt Bauman afirma em Amor Líquido que "a promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a 'experiência amorosa' à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço".
Em A Arte da Vida, Baumam sugere que façamos uma pausa em nossa busca pela felicidade, que "temos em mente a maior parte do tempo, preenche a maior parte de nossas vidas, [mas] não pode nem vai abrandar a marcha, muito menos parar... pelo menos não por mais que um instante (fugaz, sempre fugaz)".
Enfim, como sintetiza Luiz Felipe Pondé em Contra um Mundo Melhor, citando Macbeth de William Shakespeare: "A vida é um conto narrado por um idiota significando nada".
Barcelona
¿Por qué tanto perderse,
tanto buscarse sin encontrarse?
Me encierran los muros de todas partes.
¡Barcelona!
Te estás equivocando.
No puedes seguir inventando
que el mundo sea otra cosa,
y volar como mariposa.
¡Barcelona!
Hace un calor
que me deja fría por dentro
con este vicio de vivir mintiendo.
Qué bonito sería tu mar
si supiera yo nadar.
¡Barcelona!
Y mientras estás llena
de caras de gente extranjera,
conocida, desconocida,
y vuelto a ser transparente,
no existo más,
Barcelona,
si no es cosa de tus ritmos,
tu laberinto extrovertido.
No he encontrado la razón
por qué me duele el corazón,
por qué es tan fuerte que sólo
podré vivirte en la distancia
y escribirte una canción.
Te quiero, Barcelona.
Barcelona es poderosa.
"Barcelona" - Giulia y Los Tellarini
tanto buscarse sin encontrarse?
Me encierran los muros de todas partes.
¡Barcelona!
Te estás equivocando.
No puedes seguir inventando
que el mundo sea otra cosa,
y volar como mariposa.
¡Barcelona!
Hace un calor
que me deja fría por dentro
con este vicio de vivir mintiendo.
Qué bonito sería tu mar
si supiera yo nadar.
¡Barcelona!
Y mientras estás llena
de caras de gente extranjera,
conocida, desconocida,
y vuelto a ser transparente,
no existo más,
Barcelona,
si no es cosa de tus ritmos,
tu laberinto extrovertido.
No he encontrado la razón
por qué me duele el corazón,
por qué es tan fuerte que sólo
podré vivirte en la distancia
y escribirte una canción.
Te quiero, Barcelona.
Barcelona es poderosa.
"Barcelona" - Giulia y Los Tellarini
sábado, 16 de junho de 2012
A vida como ela é
Da viagem que fiz à Espanha no mês passado, acho que a memória mais marcante que guardarei é a de uma tourada que assisti em Madri. Não pela previsível brutalidade do evento, que a esta altura da vida já não me causa comoção, mas pela reação do público a um episódio particular.
Iniciava-se a terceira "corrida" do dia, como eles chamam por lá, sendo que dois toureiros e dois touros já haviam se apresentado na arena lotada. Mas o touro que entrava agora era maior e muito mais bravo do que os anteriores.
Este touro parecia incansável, cravando os chifres nas tábuas de proteção por detrás das quais alguns se escondiam e sempre batendo uma das patas no chão enquanto mugia enfurecidamente. Mesmo sendo espetado e provocado de formas variadas, como dita a tradição, isso só parecia enfurecê-lo mais. E, apesar de todo o esforço, seu destino estava selado.
Então presenciei algo que não havia ocorrido nas apresentações anteriores e que me deixou bastante comovido: já morto, enquanto era arrastado em torno da arena pelos cavalos que o levariam para fora, este bravo foi sonoramente aplaudido por toda a platéia em pé.
Iniciava-se a terceira "corrida" do dia, como eles chamam por lá, sendo que dois toureiros e dois touros já haviam se apresentado na arena lotada. Mas o touro que entrava agora era maior e muito mais bravo do que os anteriores.
Este touro parecia incansável, cravando os chifres nas tábuas de proteção por detrás das quais alguns se escondiam e sempre batendo uma das patas no chão enquanto mugia enfurecidamente. Mesmo sendo espetado e provocado de formas variadas, como dita a tradição, isso só parecia enfurecê-lo mais. E, apesar de todo o esforço, seu destino estava selado.
Então presenciei algo que não havia ocorrido nas apresentações anteriores e que me deixou bastante comovido: já morto, enquanto era arrastado em torno da arena pelos cavalos que o levariam para fora, este bravo foi sonoramente aplaudido por toda a platéia em pé.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Arte, Vinho e Amor - Os Antídotos
"We all fear death and question our place in the Universe. The artist's job is not to succumb to despair, but to find an antidote for the emptiness of existence."
-- Fala da personagem Gertrude Stein no filme "Meia-noite em Paris", de Woody Allen.
"En ella desarrolla un discurso pictórico sobre las bondades del vino y su capacidad para consolar a las gentes de las penalidades de la vida diaria."
-- Trecho da descrição do Museu do Prado para "Los borrachos, o el triunfo de Baco", de Velázquez.
"Obra moral que muestra el triunfo de la Muerte sobre las cosas mundanas, simbolizado a través de un gran ejército de esqueletos arrasando la Tierra. (...) Algunos intentan luchar contra su funesto destino, otros se abandonan a su suerte. Sólo una pareja de amantes, en la parte inferior derecha, permanece ajena al futuro que ellos también han de padecer."
-- Trecho da descrição do Museu do Prado para "El triunfo de la Muerte", de Bruegel "el Viejo".
-- Fala da personagem Gertrude Stein no filme "Meia-noite em Paris", de Woody Allen.
"En ella desarrolla un discurso pictórico sobre las bondades del vino y su capacidad para consolar a las gentes de las penalidades de la vida diaria."
-- Trecho da descrição do Museu do Prado para "Los borrachos, o el triunfo de Baco", de Velázquez.
"Obra moral que muestra el triunfo de la Muerte sobre las cosas mundanas, simbolizado a través de un gran ejército de esqueletos arrasando la Tierra. (...) Algunos intentan luchar contra su funesto destino, otros se abandonan a su suerte. Sólo una pareja de amantes, en la parte inferior derecha, permanece ajena al futuro que ellos también han de padecer."
-- Trecho da descrição do Museu do Prado para "El triunfo de la Muerte", de Bruegel "el Viejo".
domingo, 6 de maio de 2012
Contra um Mundo Melhor
"Se você se acha uma pessoa equilibrada, dessas que respeitam o parceiro no amor, que creem na igualdade entre os sexos como adorno na sua cama de casal, que comem apenas comida saudável, que conversam com plantas porque se julgam mais consciente, que se julgam sensível e honesta, que reciclam lixo, feche este livro. Todas as poucas palavras que você encontrará aqui são contra você. Não acredito em você. Você é um mentiroso, ou uma mentirosa."
-- Trecho de "Contra um Mundo Melhor", Luiz Felipe Pondé, Leya.
-- Trecho de "Contra um Mundo Melhor", Luiz Felipe Pondé, Leya.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Is this the real life?
"Is this the real life?
Is this just fantasy?
Caught in a landslide,
No escape from reality
Open your eyes,
Look up to the skies and see,
I'm just a poor boy, I need no sympathy,
Because I'm easy come, easy go,
Little high, little low,
Any way the wind blows doesn't really matter to me, to me"
-- Trecho de "Bohemian Rhapisody", Queen.
Is this just fantasy?
Caught in a landslide,
No escape from reality
Open your eyes,
Look up to the skies and see,
I'm just a poor boy, I need no sympathy,
Because I'm easy come, easy go,
Little high, little low,
Any way the wind blows doesn't really matter to me, to me"
-- Trecho de "Bohemian Rhapisody", Queen.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Aniversário
Ontem foi meu aniversário. Ao contrário dos últimos anos, não fiz festa, não me reuni com os amigos, nada. Preferi desligar o telefone e ficar quietinho em casa, torcendo para que, assim, este aniversário não acontecesse.
Os anos passam e ainda não vejo terra firme no horizonte. Quem serei quando eu chegar lá? Quanto tempo ainda me restará?
Os anos passam e ainda não vejo terra firme no horizonte. Quem serei quando eu chegar lá? Quanto tempo ainda me restará?
segunda-feira, 7 de março de 2011
O melhor de mim
Enquanto dirigia para o teatro ontem, eu ouvia a entrevista dessa atriz sobre seu último filme. Ela respondeu a uma das perguntas mais ou menos assim: "Eu aprendi a não julgar as pessoas. Aprendi que as pessoas não são o que querem ser, elas são apenas o melhor que conseguem fazer de suas vidas naquele momento". Me atingiu em cheio.
Durante a peça ("Cândida" de Bernard Shaw), um diálogo particular entre os personagens Marchbanks e Prosérpina chamou a minha atenção. Disse Marchbanks: "Pessoas más são pessoas que não tem amor, por isso elas não tem vergonha. Elas tem o poder de pedir amor porque não precisam dele. Elas tem o poder de oferecê-lo porque não tem nenhum para dar. Mas nós, que temos amor e ansiamos por misturá-lo ao amor dos outros, não conseguimos dizer uma palavra". Lembro-me de ter me curvado à frente, apoiado o queixo sobre as mãos e turvado os olhos nesse momento.
Como eu gostaria de superar meus medos. E como me esforço para isso. Mas sou apenas o melhor que consigo fazer de mim.
Durante a peça ("Cândida" de Bernard Shaw), um diálogo particular entre os personagens Marchbanks e Prosérpina chamou a minha atenção. Disse Marchbanks: "Pessoas más são pessoas que não tem amor, por isso elas não tem vergonha. Elas tem o poder de pedir amor porque não precisam dele. Elas tem o poder de oferecê-lo porque não tem nenhum para dar. Mas nós, que temos amor e ansiamos por misturá-lo ao amor dos outros, não conseguimos dizer uma palavra". Lembro-me de ter me curvado à frente, apoiado o queixo sobre as mãos e turvado os olhos nesse momento.
Como eu gostaria de superar meus medos. E como me esforço para isso. Mas sou apenas o melhor que consigo fazer de mim.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
Medo de si
"Our deepest fear is not that we are inadequate.
Our deepest fear is that we are powerful beyond measure.
We ask ourselves: Who am I to be brilliant, gorgeous, talented, fabulous?
Actually, who are you not to be?"
- Marianne Williamson
Our deepest fear is that we are powerful beyond measure.
We ask ourselves: Who am I to be brilliant, gorgeous, talented, fabulous?
Actually, who are you not to be?"
- Marianne Williamson
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Virtudes públicas
Há cerca de seis meses consegui me recolocar em outra área da empresa. Naquele momento senti um grande alívio por não ter mais que trabalhar com algumas pessoas extremamente desgastantes.
Uma dessas pessoas tem o hábito de falar, nas rodas de cafezinho, que ensina seus filhos a serem cidadãos éticos: um dia fala sobre a importância do voto; No outro, comenta como a família se engaja na economia de água. Entretanto, ela não demonstra ética nenhuma na prática. Quando, por exemplo, algo potencialmente incorreto vinha de outra área para a gente, ela dizia que não era nossa responsabilidade verificar. E aí? Dane-se a empresa? Dane-se o cliente?
Por essas e outras, eu me revolto em silêncio quando um incauto se mostra encantado com suas demonstrações públicas de nobreza, sendo que os verdadeiros nobres da turma não fazem qualquer questão de expor suas virtudes.
Uma dessas pessoas tem o hábito de falar, nas rodas de cafezinho, que ensina seus filhos a serem cidadãos éticos: um dia fala sobre a importância do voto; No outro, comenta como a família se engaja na economia de água. Entretanto, ela não demonstra ética nenhuma na prática. Quando, por exemplo, algo potencialmente incorreto vinha de outra área para a gente, ela dizia que não era nossa responsabilidade verificar. E aí? Dane-se a empresa? Dane-se o cliente?
Por essas e outras, eu me revolto em silêncio quando um incauto se mostra encantado com suas demonstrações públicas de nobreza, sendo que os verdadeiros nobres da turma não fazem qualquer questão de expor suas virtudes.
sábado, 29 de janeiro de 2011
Identidade
"Não creio ser verdade o que dizem, que ao viajar
alguém possa se transformar em outra pessoa:
o que acontece é que nos livramos de nós mesmos,
de nossas obrigações e nosso passado, tal como
reduzimos tudo o que possuimos aos poucos objetos
necessários que vão dentro da mala.
A parte mais pesada de nossa identidade sustenta-se
sobre o que os outros pensam e sabem sobre nós.
Olham-nos e sabemos que sabem, e no silêncio
forçam-nos a ser o que esperam que sejamos."
-- Antonio Muñoz Molina
"Você pensa saber quem é e de repente descobre
que se transformou no que outros querem enxergar em você,
e pouco a pouco vai ficando mais estranho para si mesmo,
e sua própria sombra é o espião que segue seus passos,
e em seus olhos você vê o olhar dos que o acusam,
dos que mudam de calçada para não cumprimentá-lo
e olham-no de soslaio e cabeça baixa ao cruzarem com você."
-- Antonio Muñoz Molina
alguém possa se transformar em outra pessoa:
o que acontece é que nos livramos de nós mesmos,
de nossas obrigações e nosso passado, tal como
reduzimos tudo o que possuimos aos poucos objetos
necessários que vão dentro da mala.
A parte mais pesada de nossa identidade sustenta-se
sobre o que os outros pensam e sabem sobre nós.
Olham-nos e sabemos que sabem, e no silêncio
forçam-nos a ser o que esperam que sejamos."
-- Antonio Muñoz Molina
"Você pensa saber quem é e de repente descobre
que se transformou no que outros querem enxergar em você,
e pouco a pouco vai ficando mais estranho para si mesmo,
e sua própria sombra é o espião que segue seus passos,
e em seus olhos você vê o olhar dos que o acusam,
dos que mudam de calçada para não cumprimentá-lo
e olham-no de soslaio e cabeça baixa ao cruzarem com você."
-- Antonio Muñoz Molina
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Diabetes
Um amigo levou seu filho de 14 anos, diabético tipo I, em um dos nossos happy hours. Antes de avançar nos petiscos, o menino sacou uma seringa e injetou-se uma ampola de insulina na coxa. Meu amigo, sabendo que sou diabético tipo II, olha para mim e pergunta com sarcasmo: "você quer isso para você?"
Aquilo mexeu comigo. Não vi nada diferente e não mudei meus hábitos de alimentação mas, desde então, volta-e-meia tenho algum pesadelo em torno desse assunto.
Na noite passada sonhei com um casal que preparava-se para uma celebração gastronômica. Os dois conversam sobre banalidades, enquanto o homem vai injetando várias doses de insulina em si e na amiga através de uma cinta presa ao braço de cada um, ligada a um caninho de ar comprimido com um interruptor na outra ponta. A cada disparo nota-se uma rápida expressão de dor em seus rostos. Num certo momento a mulher diz: "eu não quero mais", mas o homem ignora-a e, pssssh, injeta mais uma. Ela faz mais uma careta e segue a conversa normalmente.
Quem tem diabetes, tem medo.
Aquilo mexeu comigo. Não vi nada diferente e não mudei meus hábitos de alimentação mas, desde então, volta-e-meia tenho algum pesadelo em torno desse assunto.
Na noite passada sonhei com um casal que preparava-se para uma celebração gastronômica. Os dois conversam sobre banalidades, enquanto o homem vai injetando várias doses de insulina em si e na amiga através de uma cinta presa ao braço de cada um, ligada a um caninho de ar comprimido com um interruptor na outra ponta. A cada disparo nota-se uma rápida expressão de dor em seus rostos. Num certo momento a mulher diz: "eu não quero mais", mas o homem ignora-a e, pssssh, injeta mais uma. Ela faz mais uma careta e segue a conversa normalmente.
Quem tem diabetes, tem medo.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Separação dos Poderes
Do Wikipedia: "A Teoria da Separação dos Poderes (ou da Tripartição dos Poderes do Estado) é a teoria de ciência política desenvolvida por Montesquieu, no livro O Espírito das Leis (1748), que visou moderar o Poder do Estado dividindo-o em funções, e dando competências a órgãos diferentes do Estado."
Meu primo foi eleito vereador de uma cidadezinha do interior nestas mesmas eleições em que o Tiririca foi eleito deputado federal. Ele me contava que implementar um projeto no Brasil é tão burocrático e jurídicamente arriscado, que a maioria das pessoas no governo prefere permanecer na inércia a trabalhar pela população.
Eu só conheço a iniciativa privada. Pela minha experiência, sempre que um indivíduo ou grupo define processos ou regras que não o impactam diretamente, o primeiro resultado é a ineficiência. Nesse contexto, o que se pode esperar de uma configuração semelhante, como a do Legislativo e Executivo?
Meu primo foi eleito vereador de uma cidadezinha do interior nestas mesmas eleições em que o Tiririca foi eleito deputado federal. Ele me contava que implementar um projeto no Brasil é tão burocrático e jurídicamente arriscado, que a maioria das pessoas no governo prefere permanecer na inércia a trabalhar pela população.
Eu só conheço a iniciativa privada. Pela minha experiência, sempre que um indivíduo ou grupo define processos ou regras que não o impactam diretamente, o primeiro resultado é a ineficiência. Nesse contexto, o que se pode esperar de uma configuração semelhante, como a do Legislativo e Executivo?
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
"Status"
Eu estava lá, jogado no sofá, quando essa tia vem me cumprimentar:
- Bom dia, querido!
- Bom dia, tia.
- Olha como ele é fino! Fala tão baixinho...
Eu respondo com um sorriso e ela sai da sala. Penso comigo: a gente atinge um certo "status" e tudo o que a gente faz é bem percebido pelos outros. Até quando evita abrir a boca porque sabe que não escovou os dentes...
- Bom dia, querido!
- Bom dia, tia.
- Olha como ele é fino! Fala tão baixinho...
Eu respondo com um sorriso e ela sai da sala. Penso comigo: a gente atinge um certo "status" e tudo o que a gente faz é bem percebido pelos outros. Até quando evita abrir a boca porque sabe que não escovou os dentes...
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Gentilezas
Eu estava voltando de um evento nos EUA e teria que fazer um voo de conexão entre duas cidades americanas. Deixei para arrumar tudo na última hora e por pouco não perdi o voo. Fui o penúltimo passageiro a entrar no avião e notei que os comissários estavam agitados por conta do atraso no embarque.
Uma senhora de idade, vestida apropriadamente para o início do século XX, estava no corredor com dificuldade para acomodar sua bagagem no avião lotado. Um comissário se aproximou e disse que estávamos atrasados e que ela deveria levar a bagagem para a frente, mas ela queria ficar próxima da mala para trabalhar em suas contas. "I have to work on my bills", ela repetia. Impaciente, o comissário foi cuidar de outros assuntos.
Tentei ajudá-la. Fizemos algumas tentativas sem sucesso até que alguém da equipe conseguiu ajeitar tudo. Alguns minutos depois, já em meu assento, recebi um bilhete do tal comissário impaciente: "Obrigado por me ajudar com a senhora. Se você quiser comer algo, será por conta da casa (grátis)".
Tenho por hábito fazer pequenas gentilezas sem esperar nenhum retorno por elas. Faço-as mais por mim do que pelos outros. Mas esse agradecimento inesperado mexeu comigo... Encostei a cabeça na janela fria do avião e, com o olhar perdido no horizonte, cheguei à triste conclusão de que não me sinto suficientemente amado.
Uma senhora de idade, vestida apropriadamente para o início do século XX, estava no corredor com dificuldade para acomodar sua bagagem no avião lotado. Um comissário se aproximou e disse que estávamos atrasados e que ela deveria levar a bagagem para a frente, mas ela queria ficar próxima da mala para trabalhar em suas contas. "I have to work on my bills", ela repetia. Impaciente, o comissário foi cuidar de outros assuntos.
Tentei ajudá-la. Fizemos algumas tentativas sem sucesso até que alguém da equipe conseguiu ajeitar tudo. Alguns minutos depois, já em meu assento, recebi um bilhete do tal comissário impaciente: "Obrigado por me ajudar com a senhora. Se você quiser comer algo, será por conta da casa (grátis)".
sábado, 8 de janeiro de 2011
Lerdo
- Bom, é um romance, não? E num romance não é preciso dizer a verdade. Nem sempre é verossímel.
- Sim... Não, não! O que não é verossímel?
- Ah, Benjamín! Aquela parte, quando o cara parte para Jujuy... Ele chorando como se fosse uma perda... E ela correndo pela plataforma como se estivesse perdendo o amor de sua vida... Tocando-se as mãos através do vidro, como se fossem uma única pessoa! Ela chorando, como se soubesse que lhe esperava um destino medíocre, sem amor. Quase caindo sobre os trilhos, como se quisesse gritar-lhe um amor que nunca tinha confessado!
- Sim... Mas foi assim, ou não foi assim?
- E, se foi assim... Por que não me levou com você?
- ...
- Seu lerdo.
(Diálogo do filme "O Segredo dos seus Olhos", dir. Juan José Campanella, Europa Filmes)
- Sim... Não, não! O que não é verossímel?
- Ah, Benjamín! Aquela parte, quando o cara parte para Jujuy... Ele chorando como se fosse uma perda... E ela correndo pela plataforma como se estivesse perdendo o amor de sua vida... Tocando-se as mãos através do vidro, como se fossem uma única pessoa! Ela chorando, como se soubesse que lhe esperava um destino medíocre, sem amor. Quase caindo sobre os trilhos, como se quisesse gritar-lhe um amor que nunca tinha confessado!
- Sim... Mas foi assim, ou não foi assim?
- E, se foi assim... Por que não me levou com você?
- ...
- Seu lerdo.
(Diálogo do filme "O Segredo dos seus Olhos", dir. Juan José Campanella, Europa Filmes)
domingo, 2 de janeiro de 2011
Reciprocidade
"According to sociologists and anthropologists, one of the most widespread and basic norms of human culture is embodied in the rule for reciprocation. The rule requires that one person try to repay, in kind, what another person has provided."
(Influence Science and Practice, Robert B. Cialdini, Allyn and Bacon)
No último almoço destas férias foram servidos bombons com mensagens, como os biscoitos da sorte chineses. No meu estava escrito: "Tudo o que sabemos sobre o amor é que o amor é tudo".
Meu irmão tem dois filhos que sempre o amaram. Mas meu irmão não sabe amar.
(Influence Science and Practice, Robert B. Cialdini, Allyn and Bacon)
No último almoço destas férias foram servidos bombons com mensagens, como os biscoitos da sorte chineses. No meu estava escrito: "Tudo o que sabemos sobre o amor é que o amor é tudo".
Meu irmão tem dois filhos que sempre o amaram. Mas meu irmão não sabe amar.
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Horas bem vividas
Acho que nunca mencionei aqui mas, há algum tempo, assisti a um filme chamado "Um dia muito especial", no qual o personagem principal carrega um daqueles relógios de bolso antigos, com o qual ele marca o tempo de vida realmente vivido. Sempre que algo muito bom vai começar, ele tira o relógio do bolso e liga o cronômetro. Quando o momento acaba, ele desliga novamente. O filme inicia no dia em que o personagem está completando 40 anos e o relógio está marcando 40 horas bem vividas.
Fiquei uns meses sem postar nada e hoje vim escrever sobre as biografias. Quando li o último post, sobre os riscos, lembrei que na semana passada corri um risco e que foi muito bom. Se eu tivesse um relógio como o do filme, eu teria acrescentado exatamente 7 minutos de vida ao meu tempo bem aproveitado.
Que fique como um lembrete para que eu viva cada vez mais desses momentos bons, que fazem o coração bater forte.
Fiquei uns meses sem postar nada e hoje vim escrever sobre as biografias. Quando li o último post, sobre os riscos, lembrei que na semana passada corri um risco e que foi muito bom. Se eu tivesse um relógio como o do filme, eu teria acrescentado exatamente 7 minutos de vida ao meu tempo bem aproveitado.
Que fique como um lembrete para que eu viva cada vez mais desses momentos bons, que fazem o coração bater forte.
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