quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O espírito do ateísmo

"Sinceramente, será que você precisa acreditar em Deus para pensar que a sinceridade é melhor do que a mentira, que a coragem é melhor do que a covardia, que a generosidade é melhor do que o egoísmo, que a doçura e a compaixão são melhores do que a violência ou a crueldade, que a justiça é melhor que a injustiça, que o amor é melhor que o ódio? Claro que não! Se você acredita em Deus, você reconhece em Deus esses valores; ou, talvez, você reconhece Deus neles. É a figura tradicional: sua fé e sua fidelidade andam juntas, e não sou eu que vou criticá-lo por isso. Mas os que não têm fé, por que seriam incapazes de perceber a grandeza humana desses valores, sua importância, sua necessidade, sua fragilidade, sua urgência, e respeitá-los por isso?"

(O espírito do ateísmo, André Comte-Sponville, Martins Fontes)

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Eu, ateu

Que fique claramente registrada a minha opção religiosa: sou ateu. E não vou ficar aqui defendendo minha posição, nem tampouco atacando a dos que têm uma diferente da minha. Como é amplamente sabido, religião não se discute, mesmo porque não se convence alguém a ter, mudar ou largar a fé com uma conversa.

Na última semana vivi uma paixão daquelas que fazem o coração bater tão forte que empurra o peito. Mas passou hoje. Saí com ela algumas vezes durante a semana. Nada aconteceu, nem um beijo, mesmo porque estávamos ambos receosos de ingressar num novo relacionamento e fomos dando muito tempo ao tempo.

A paixão não acabou porque ela tentou mudar a minha não-fé. Acabou porque percebi que ela não sabe conviver com uma opinião diferente da dela.

Estávamos numa lanchonete conversando quando me dei conta disso. Ela percebeu que murchei completamente e perguntou o que havia acontecido. Eu estava desapontado, mas não tive coragem de dizer-lhe. Deixei-a em sua casa, despedi-me com um beijo no rosto e vim digerir minha tristeza.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Compulsão por balas

Levei um pacote de balas para o trabalho. Estávamos em três na sala, incluindo um técnico recém-contratado, que mudou-se de outro estado por conta do novo emprego. Ele abriu o pacote e consumiu tudo em pouco tempo, enquanto repetia: "não consigo parar de comer". Achei-o egoísta e folgado, afinal as balas eram para todos.

Nesse mesmo dia, na hora do almoço, um quarto colega que viajava para a cidade onde estávamos ligou e perguntou se alguém queria que ele levasse sanduíches. O novo funcionário recusou, dizendo que estava sem dinheiro. Eu disse que, se ele quisesse, poderia emprestar-lhe. Nada feito.

Naquela tarde eu ainda estava incomodado com a questão das balas. Enquanto caminhava, reflexivo, entre dois prédios, ocorreu-me que aquele comportamento poderia ter outra causa.

Ao retornar para a sala, perguntei-lhe se já estava bem instalado, se precisava de alguma coisa e se tinha dinheiro. Ele respondeu que estava bem, que não precisava de nada e que tinha R$ 50 para se virar até o fim do mês, suficientes segundo ele, pois estava fazendo as refeições na empresa, gratuitamente. Ainda faltavam 20 dias para o fim do mês.

Como na empresa só fornecem almoços, deduzi que ela estava fazendo apenas uma refeição ao dia. O que achei ser egoísmo era, na verdade, muita fome.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Reflexões sobre misérias particulares

-- Por que você segue em frente, se tem uma vida de cachorro?
-- Eu gosto de sentir o sol na rua.

(Diálogo do filme "Infância Roubada", de Gavin Hood)

Todos os dias, no meu caminho para o trabalho, passo por uma rua onde vejo sempre um mendigo. Se ele não está encostado no muro, onde passa a maior parte do dia, está sentado numa escadinha de três degraus do estabelecimento ao lado, que parece estar vago.

É um mendigo que me chama a atenção. Ele está sempre lá, seja 9h da manhã ou 2h da tarde, esteja fazendo calor ou caindo uma garoinha fria. Ele está sempre de gorro e casaco, de barba comprida e sujo. Seus bolsos são cheios de canetas esferográficas coloridas, pelo que pude ver de dentro do conforto do meu carro.

Minha curiosidade aumenta diariamente. Às vezes o vejo lendo um jornal. Nunca o vi com ninguém. Ele também não pede nada aos passantes. Está apenas ali, existindo, uma existência miserável.

Costumo olhar para o seu rosto, na tentativa de captar alguma emoção. Apesar de sua condição, ele não expressa sinais de revolta, mágoa, sofrimento, angústia, desesperança. Como é possível?!

Às vezes sinto que eu levo uma vida miserável. Como é possível?!

domingo, 25 de novembro de 2007

Epicurismo aplicado

Havíamos todos ido a um boteco, a convite desse amigo querido. Nos divertimos até o bar fechar e então saímos à procura de outro local para aproveitar o restante da noite. Era madrugada alta, estávamos em 5 no carro e -- sem muitas opções naquele horário -- ele me perguntou se podíamos vir para a minha casa.

Claro que sim! Compramos bebidas e viemos. Em 1 ano e 9 meses, esta foi a primeira reunião que fiz aqui. Por ser um apartamento modesto e com alguns reparos pendentes, estive sempre adiando a inauguração.

Epicuro vivia simples e livremente, e tinha o hábito de receber amigos em sua casa, pois acreditava serem esses os pilares da felicidade. Eu sabia disso. Mas, como já dizia Leonardo da Vinci: "não basta saber, é preciso aplicar".

Amor-próprio

"O homem que odeia a si mesmo é incapaz de amar alguém".

(Auto-engano, Eduardo Giannetti, Companhia de Bolso)

Recentemente aprendi a procurar o que há "por trás" dos pensamentos que tenho a meu próprio respeito. Este blog, por exemplo: seria uma tentativa de convencer-me de que tenho certas qualidades das quais, na verdade, careço?

O amor é algo que julgo essencial e, no entanto, não há em minha vida nada em que eu tenha sido mais deficiente, apesar de não terem faltado oportunidades de amar e ser amado.

Não, eu não me odeio. Mas há uma parte de mim da qual eu definitivamente não gosto.

domingo, 11 de novembro de 2007

Autoconhecimento

"Na mente do homem 'curado' do auto-engano não haveria lugar para nenhum pensamento sobre si mesmo, seu futuro e sua capacidade de mudar as coisas que não satisfizesse o mais rigoroso teste de realismo e objetividade. Nenhuma crença, emoção ou vivência subjetiva que o exame de consciência desconhecesse; nenhuma ilusão, confortadora ou não, encontraria abrigo no solo austero de sua racionalidade gelada. Toda concentração excessiva de valor seria imediatamente suspeita. Pertencendo ao universo natural como o ser insignificante e absurdo que ele efetivamente sabe que é -- nada além de uma concatenação efêmera e fortuita de circunstâncias acidentais no infinito oceano da matéria --, que tipo de esperança ou sentido ele poderia encontrar em existir?"

(Auto-engano, Eduardo Giannetti, Companhia de Bolso)