"Acho que esse foi o melhor almoço que tive nos últimos 50 dias", disse esse meu amigo, demonstrando enorme satisfação, enquanto nos retirávamos do restaurante turco recém-inaugurado.
Ele tinha almoçado ali poucos dias antes. Tinha provado praticamente os mesmos pratos que selecionara para os que ali se reuniam agora. Os amigos eram os de sempre, com quem já fizera outras refeições também. Então, o que tornara aquele almoço tão particularmente agradável?
A resposta talvez esteja relacionada à rara felicidade que tenho vivido. Rara porque é uma felicidade serena, sem ansiedade, sem exaltação. Acho que ela advém da descoberta gradativa de quem realmente sou. Há algum tempo deixei de querer parecer alguém, para ser eu mesmo. Depois passei a prestar atenção no que os outros dizem a meu respeito, para mim. E estou gostando do que ouço. Acho que a isso chamam de "validação".
Naquele dia, durante a refeição, expressei a meu amigo minha admiração pela quantidade de histórias que ele tem a contar sobre qualquer assunto que surja à mesa. Senti que aquilo fez bem a ele. Eu o "validei".
O gesto, embora gratuito, acabou gerando uma validação de volta, pois me senti bem também por ter contribuído para fazer um dos melhores almoços de um amigo que admiro.
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
segunda-feira, 17 de setembro de 2007
Validação
Hoje o segurança da empresa onde trabalho me contou que batizou seu filho de 1 ano com meu nome, em minha homenagem.
Temos uma relação baseada apenas em respeito mútuo e conversas atentas e sinceras de corredor, o que torna esse presente ainda mais especial para mim: é um sinal positivo às transformações que venho passando, um reconhecimento à pessoa que agora genuinamente sou.
Temos uma relação baseada apenas em respeito mútuo e conversas atentas e sinceras de corredor, o que torna esse presente ainda mais especial para mim: é um sinal positivo às transformações que venho passando, um reconhecimento à pessoa que agora genuinamente sou.
domingo, 16 de setembro de 2007
Piadinha filosófica
"Um francês, um inglês e um alemão foram encarregados de um estudo sobre o camelo.
O francês dirigiu-se ao Jardin des Plantes, passou lá uma meia hora, interrogou o vigia, jogou pão para o camelo, cutucou-o com a ponta do seu guarda-chuva e, tendo voltado para casa, escreveu em seu diário um folhetim cheio de bosquejos picantes e espirituosos.
O inglês, carregando sua cesta de chá e um confortável material de acampamento, foi plantar sua barraca nos países do Oriente. Após uma temporada de dois ou três anos, trouxe de lá um espesso volume recheado de fatos sem ordem nem conclusão, mas de verdadeiro valor documental.
Quanto ao alemão, cheio de desprezo pela frivolidade do francês e pela ausência de idéias gerais do inglês, fechou-se em seu quarto para ali redigir uma obra em vários volumes intitulada: A idéia de camelo, extraída da concepção do Eu."
(A Filosofia, André Comte-Sponville, Martins Fontes)
O francês dirigiu-se ao Jardin des Plantes, passou lá uma meia hora, interrogou o vigia, jogou pão para o camelo, cutucou-o com a ponta do seu guarda-chuva e, tendo voltado para casa, escreveu em seu diário um folhetim cheio de bosquejos picantes e espirituosos.
O inglês, carregando sua cesta de chá e um confortável material de acampamento, foi plantar sua barraca nos países do Oriente. Após uma temporada de dois ou três anos, trouxe de lá um espesso volume recheado de fatos sem ordem nem conclusão, mas de verdadeiro valor documental.
Quanto ao alemão, cheio de desprezo pela frivolidade do francês e pela ausência de idéias gerais do inglês, fechou-se em seu quarto para ali redigir uma obra em vários volumes intitulada: A idéia de camelo, extraída da concepção do Eu."
(A Filosofia, André Comte-Sponville, Martins Fontes)
terça-feira, 4 de setembro de 2007
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
Rumos
Lembro bem daquela noite. Era janeiro de 1989, período de férias escolares. Eu tinha 13 anos e me sentia frustrado ou entediado. Eu estava na sala, sentado no canto esquerdo do sofá, e meu pai estava deitado no espaço restante. Assistíamos a um filme na TV chamado "Jogos de Guerra", sobre um hacker que invadia um computador e quase provocava uma guerra nuclear. Aquilo me deixou empolgadíssimo! Perguntei a meu pai se poderia fazer um curso de computação e ele concordou. Fiz minha matrícula na mesma semana e comecei o curso no mês seguinte.
Dezoito anos se passaram desde então. Olhando para trás, vejo que todo o meu futuro acadêmico e profissional foi determinado naquela noite. Na época, alguns parentes achavam ótimo eu ter certeza, desde cedo, sobre o que queria estudar. Internamente, eu me achava maquiavélico, porque acreditava que minha motivação tinha origem no "poder" de invadir computadores e fazer maldades.
Recentemente encontrei esse filme à venda numa loja aqui do bairro e não tive a menor dúvida: comprei. Assistindo a ele novamente, e com o conhecimento que tenho hoje sobre mim, compreendi a verdadeira questão: o "mocinho" do filme conhece uma "mocinha" e ele a impressiona com suas habilidades técnicas...
Passei dois terços da minha vida procurando a minha "mocinha".
Dezoito anos se passaram desde então. Olhando para trás, vejo que todo o meu futuro acadêmico e profissional foi determinado naquela noite. Na época, alguns parentes achavam ótimo eu ter certeza, desde cedo, sobre o que queria estudar. Internamente, eu me achava maquiavélico, porque acreditava que minha motivação tinha origem no "poder" de invadir computadores e fazer maldades.
Recentemente encontrei esse filme à venda numa loja aqui do bairro e não tive a menor dúvida: comprei. Assistindo a ele novamente, e com o conhecimento que tenho hoje sobre mim, compreendi a verdadeira questão: o "mocinho" do filme conhece uma "mocinha" e ele a impressiona com suas habilidades técnicas...
Passei dois terços da minha vida procurando a minha "mocinha".
Sobre a brevidade da vida
"Pequena é a parte da vida que vivemos. Pois todo o resto não é vida, mas somente tempo."
"O que fazemos é breve, o que faremos, dúbio, o que fizemos, certo."
-- Sêneca
"O que fazemos é breve, o que faremos, dúbio, o que fizemos, certo."
-- Sêneca
sábado, 4 de agosto de 2007
O desafio de Glaucon
"Algumas escolhas são fáceis, algumas não. Estas são as realmente importantes, as que nos definem como pessoa."
(Do filme "Número 23", com Jim Carrey, de Joel Schumacher)
Em minha pesquisa sobre o assunto do post anterior, encontrei na área de educação aberta do MIT (http://ocw.mit.edu/) uma aula de filosofia antiga na qual é abordado o tema "Por que ser moral". Faço um mini resumo aqui:
A aula apresenta 3 tipos de bens: os bens do tipo A seriam aqueles desejáveis pelo que são em si, como prazer ou felicidade; Os do tipo B seriam os desejáveis pelo que são e pelo que podem trazer, como conhecimento e saúde; Os do tipo C seriam desejáveis apenas pelo que podem trazer, como dinheiro ou fazer medicina.
A maioria das pessoas pensa na justiça como um bem do tipo C, ou seja, desejável apenas por suas conseqüências, mas Glaucon e Sócrates acreditavam que a justiça é um bem do tipo B, desejável em si e por suas conseqüências. Glaucon desafia Sócrates e demonstrar que a justiça é um bem do tipo B. Qual é a importância disso? Se a justiça fosse apenas desejável por suas conseqüências, então não teríamos motivações persistentes para sermos justos e erraríamos ao considerar a justiça uma virtude, algo a perseguir numa vida de excelência e felicidade.
Glaucon define as bases do desafio:
- Ele coloca o que as pessoas consideram ser a origem e a natureza da justiça: diz que as pessoas, por natureza, agirão errado se tiverem a opção de fazê-lo. Diz que a melhor opção é agir errado sem ser punido e a pior é ser injustiçado sem poder se vingar. Diz que é melhor causar uma injustiça do que sofrê-la. Diz que, para evitar sofrer injustiças, as pessoas sacrificam parte de seu poder de agir errado, e essa é a origem da justiça. Diz que o forte não precisa temer a injustiça e portanto não há razão para sacrificar seu poder e ser justo.
- Glaucon diz que as pessoas só praticam a justiça porque a vêem como algo necessário. As pessoas, por natureza, buscam a satisfação de seus desejos. Elas querem tanto quanto puderem ter, dentro de seus limites de poder. Se permitíssemos a alguém, justo ou injusto, a liberdade de agir como quisesse sem temer as conseqüências, essa pessoa agiria injustamente.
- Glaucon diz que a vida do injusto é melhor que a vida do justo. Diz que devemos decidir quando a injustiça é uma boa escolha comparando a pessoa completamente justa e a completamente injusta, para determinar qual é a mais feliz. A pessoa completamente justa é aquela que é justa apesar de parecer injusta. A pessoa completamente injusta é aquela que se livra da injustiça insuspeitadamente. A pessoa completamente injusta seria mais feliz que a justa, portanto a injustiça é uma boa escolha como parte de uma vida feliz.
Estando Glaucon certo, então a justiça só seria boa por suas conseqüências em determinadas condições sociais, onde ela traria recompensas e reputação, caso contrário, não haveria motivação para ser justo. Além disso, se é possível ser feliz sem ser justo, a justiça não é essencial para a felicidade e portanto não seria um componente da "excelência humana".
Infelizmente a aula termina sem nos dar uma resposta. Não sei se ela estaria nos volumes da "República" de Platão ou se o objetivo por trás de uma lição de filosofia em uma faculdade de primeira linha é apenas dar um nó na cuca mesmo.
Link para o texto "Why Be Moral?" do MIT:
http://ocw.mit.edu/NR/rdonlyres/Linguistics-and-Philosophy/24-200Fall-2004/E8F61ABE-9EC5-4CB0-9915-E5DEA25B1BFB/0/repgoods.pdf
(Do filme "Número 23", com Jim Carrey, de Joel Schumacher)
Em minha pesquisa sobre o assunto do post anterior, encontrei na área de educação aberta do MIT (http://ocw.mit.edu/) uma aula de filosofia antiga na qual é abordado o tema "Por que ser moral". Faço um mini resumo aqui:
A aula apresenta 3 tipos de bens: os bens do tipo A seriam aqueles desejáveis pelo que são em si, como prazer ou felicidade; Os do tipo B seriam os desejáveis pelo que são e pelo que podem trazer, como conhecimento e saúde; Os do tipo C seriam desejáveis apenas pelo que podem trazer, como dinheiro ou fazer medicina.
A maioria das pessoas pensa na justiça como um bem do tipo C, ou seja, desejável apenas por suas conseqüências, mas Glaucon e Sócrates acreditavam que a justiça é um bem do tipo B, desejável em si e por suas conseqüências. Glaucon desafia Sócrates e demonstrar que a justiça é um bem do tipo B. Qual é a importância disso? Se a justiça fosse apenas desejável por suas conseqüências, então não teríamos motivações persistentes para sermos justos e erraríamos ao considerar a justiça uma virtude, algo a perseguir numa vida de excelência e felicidade.
Glaucon define as bases do desafio:
- Ele coloca o que as pessoas consideram ser a origem e a natureza da justiça: diz que as pessoas, por natureza, agirão errado se tiverem a opção de fazê-lo. Diz que a melhor opção é agir errado sem ser punido e a pior é ser injustiçado sem poder se vingar. Diz que é melhor causar uma injustiça do que sofrê-la. Diz que, para evitar sofrer injustiças, as pessoas sacrificam parte de seu poder de agir errado, e essa é a origem da justiça. Diz que o forte não precisa temer a injustiça e portanto não há razão para sacrificar seu poder e ser justo.
- Glaucon diz que as pessoas só praticam a justiça porque a vêem como algo necessário. As pessoas, por natureza, buscam a satisfação de seus desejos. Elas querem tanto quanto puderem ter, dentro de seus limites de poder. Se permitíssemos a alguém, justo ou injusto, a liberdade de agir como quisesse sem temer as conseqüências, essa pessoa agiria injustamente.
- Glaucon diz que a vida do injusto é melhor que a vida do justo. Diz que devemos decidir quando a injustiça é uma boa escolha comparando a pessoa completamente justa e a completamente injusta, para determinar qual é a mais feliz. A pessoa completamente justa é aquela que é justa apesar de parecer injusta. A pessoa completamente injusta é aquela que se livra da injustiça insuspeitadamente. A pessoa completamente injusta seria mais feliz que a justa, portanto a injustiça é uma boa escolha como parte de uma vida feliz.
Estando Glaucon certo, então a justiça só seria boa por suas conseqüências em determinadas condições sociais, onde ela traria recompensas e reputação, caso contrário, não haveria motivação para ser justo. Além disso, se é possível ser feliz sem ser justo, a justiça não é essencial para a felicidade e portanto não seria um componente da "excelência humana".
Infelizmente a aula termina sem nos dar uma resposta. Não sei se ela estaria nos volumes da "República" de Platão ou se o objetivo por trás de uma lição de filosofia em uma faculdade de primeira linha é apenas dar um nó na cuca mesmo.
Link para o texto "Why Be Moral?" do MIT:
http://ocw.mit.edu/NR/rdonlyres/Linguistics-and-Philosophy/24-200Fall-2004/E8F61ABE-9EC5-4CB0-9915-E5DEA25B1BFB/0/repgoods.pdf
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