sábado, 8 de dezembro de 2007

Reflexões sobre misérias particulares

-- Por que você segue em frente, se tem uma vida de cachorro?
-- Eu gosto de sentir o sol na rua.

(Diálogo do filme "Infância Roubada", de Gavin Hood)

Todos os dias, no meu caminho para o trabalho, passo por uma rua onde vejo sempre um mendigo. Se ele não está encostado no muro, onde passa a maior parte do dia, está sentado numa escadinha de três degraus do estabelecimento ao lado, que parece estar vago.

É um mendigo que me chama a atenção. Ele está sempre lá, seja 9h da manhã ou 2h da tarde, esteja fazendo calor ou caindo uma garoinha fria. Ele está sempre de gorro e casaco, de barba comprida e sujo. Seus bolsos são cheios de canetas esferográficas coloridas, pelo que pude ver de dentro do conforto do meu carro.

Minha curiosidade aumenta diariamente. Às vezes o vejo lendo um jornal. Nunca o vi com ninguém. Ele também não pede nada aos passantes. Está apenas ali, existindo, uma existência miserável.

Costumo olhar para o seu rosto, na tentativa de captar alguma emoção. Apesar de sua condição, ele não expressa sinais de revolta, mágoa, sofrimento, angústia, desesperança. Como é possível?!

Às vezes sinto que eu levo uma vida miserável. Como é possível?!

domingo, 25 de novembro de 2007

Epicurismo aplicado

Havíamos todos ido a um boteco, a convite desse amigo querido. Nos divertimos até o bar fechar e então saímos à procura de outro local para aproveitar o restante da noite. Era madrugada alta, estávamos em 5 no carro e -- sem muitas opções naquele horário -- ele me perguntou se podíamos vir para a minha casa.

Claro que sim! Compramos bebidas e viemos. Em 1 ano e 9 meses, esta foi a primeira reunião que fiz aqui. Por ser um apartamento modesto e com alguns reparos pendentes, estive sempre adiando a inauguração.

Epicuro vivia simples e livremente, e tinha o hábito de receber amigos em sua casa, pois acreditava serem esses os pilares da felicidade. Eu sabia disso. Mas, como já dizia Leonardo da Vinci: "não basta saber, é preciso aplicar".

Amor-próprio

"O homem que odeia a si mesmo é incapaz de amar alguém".

(Auto-engano, Eduardo Giannetti, Companhia de Bolso)

Recentemente aprendi a procurar o que há "por trás" dos pensamentos que tenho a meu próprio respeito. Este blog, por exemplo: seria uma tentativa de convencer-me de que tenho certas qualidades das quais, na verdade, careço?

O amor é algo que julgo essencial e, no entanto, não há em minha vida nada em que eu tenha sido mais deficiente, apesar de não terem faltado oportunidades de amar e ser amado.

Não, eu não me odeio. Mas há uma parte de mim da qual eu definitivamente não gosto.

domingo, 11 de novembro de 2007

Autoconhecimento

"Na mente do homem 'curado' do auto-engano não haveria lugar para nenhum pensamento sobre si mesmo, seu futuro e sua capacidade de mudar as coisas que não satisfizesse o mais rigoroso teste de realismo e objetividade. Nenhuma crença, emoção ou vivência subjetiva que o exame de consciência desconhecesse; nenhuma ilusão, confortadora ou não, encontraria abrigo no solo austero de sua racionalidade gelada. Toda concentração excessiva de valor seria imediatamente suspeita. Pertencendo ao universo natural como o ser insignificante e absurdo que ele efetivamente sabe que é -- nada além de uma concatenação efêmera e fortuita de circunstâncias acidentais no infinito oceano da matéria --, que tipo de esperança ou sentido ele poderia encontrar em existir?"

(Auto-engano, Eduardo Giannetti, Companhia de Bolso)

domingo, 21 de outubro de 2007

Acabou docinho

Ela partiu ontem, às 15h30. Se morando a 10 minutos daqui eu já a via pouco, estando agora várias horas distante, imagino que não a verei uma ou duas vezes mais.

Não tive coragem de me despedir. Mandei apenas um "torpedo" covarde, que não foi respondido. Compreensível.

Eu não estava apaixonado. Mas era um bem-querer tão forte que verti algumas lágrimas quando me dei conta do que estava para acontecer.

Acabou docinho.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Sobre o propósito da vida

Ontem fui ao aniversário de uma amiga e, por acaso, sentei-me ao lado de sua mãe à mesa do boteco onde nos reuníamos. Num determinado momento começamos a conversar e aproveitei para perguntar como ela via a vida, o que a motivava, quais eram suas realizações.

Gosto de ter esse tipo de conversa com pessoas mais velhas, pois acredito que posso aprender como viver melhor. Uma das questões que acabam tocando a todos nós é que tipo de "obra" gostaríamos de ter construído durante a vida, o que gostaríamos de deixar como registro de nossa passagem.

O que me surpreendeu foram as respostas que ouvi. Com muita humildade ela me falou dela, dos filhos dela, dos interesses dela, dos desafios dela, das conquistas dela, dos planos dela.

Talvez até sem ter plena consciência disso, ela me fez entender que a grande obra de sua vida é ela mesma.

domingo, 7 de outubro de 2007

Eu só quero um xodó

(Dominguinhos e Anastácia)

Que falta eu sinto de um bem
Que falta me faz um xodó
Mas como eu não tenho ninguém
Eu levo a vida assim tão só
Eu só quero um amor
Que acabe o meu sofrer
Um xodó pra mim
Do meu jeito assim
Que alegre o meu viver